Aqueles que se consideram imersos no universo gamer sabem que o Brasil tá pra jogo, e não falamos apenas de importação.
Mais do que jogar, o público que consome jogos digitais também nutre o interesse por fazer parte dos bastidores. Já diria a PGB com seu relatório sobre “carreiras” na indústria de jogos, cuja edição de 2023 mostrou que 66% dos gamers veem oportunidade nos ramos de programação de jogos.
Se há interesse em fazer parte, há também quem já faça parte. E isso nós vemos através da presença cada vez maior de estúdios e desenvolvedores de diferentes tamanhos país afora.
No artigo de hoje, vamos compreender esse ecossistema e analisar sua relação com o mercado não só local, como global.

O que contribui para o crescimento dos jogos brasileiros no mercado?
O crescimento dos jogos brasileiros no mercado vem de uma combinação de fatores. O primeiro deles é a qualidade das produções nacionais que tem se equiparado, cada vez mais, aos padrões internacionais do que se espera de um grande jogo.
Enquanto desenvolvedoras brasileiras vêm investindo em narrativa, design e mecânicas inovadoras, elas também rompem com o antigo estereótipo de que o local é sempre “amador” demais — algo que definitivamente não vem ao caso quando se trata da criatividade brasileira.
Outros fatores são:
Aumento do apoio governamental e incentivos
Incentivos governamentais e programas de aceleração ajudam estúdios independentes a tirarem suas ideias do papel. Afinal, para um bom jogo ser criado, todo investimento é bem-vindo — isso até para os que importamos das grandes publicadoras internacionais.
Iniciativas como a Ancine, programas de apoio ao desenvolvimento de jogos digitais e a própria ABRAGAMES providenciam acesso a financiamentos e aumento na visibilidade, peças importantes para que um desenvolvedor se destaque perante a competitividade global.
Isso sem falar no encaminhamento para eventos locais e internacionais, como a Gamescom e a BGS, entre outros nomes que citamos no decorrer deste artigo.

Melhorias no acesso à tecnologia e ferramentas de desenvolvimento
Agora, mais do que nunca, temos um acesso cada vez mais democratizado. 87,6% dos brasileiros possuem um celular, e são 215 milhões de computadores em uso pelo território nacional (dados de 2023).
Todo esse acesso à tecnologias outrora exclusivas acelerou o processo de afinidade do desenvolvedor brasileiro. Mas ele não parou por aí. Até porque uma demanda alta de criação pede por instrumentos à altura.
Ferramentas de desenvolvimento como Unity e Unreal, ambos a um click de distância, facilitam o acesso de estúdios amadores a recursos de ponta, gesto que eleva o nível dos jogos produzidos.
Crescimento do mercado consumidor local e global
Com relação ao mercado de consumo, a Pesquisa Game Brasil trouxe outro insight valioso: 74,5% dos brasileiros afirmam jogar jogos digitais regularmente. Ou seja, são mais de 100 milhões de jogadores engajados e, entre eles, comunidades leais ao “simples” ato de jogar diferentes videogames de todas as partes do mundo: incluindo seu próprio lar.
Acontece que essas mesmas comunidades estão, sim, dispostas a apoiar e investir em jogos que falem seu idioma e reflitam suas vivências. O gamer também vive de identificação, daquela sensação de se ver dentro das telas através de um storytelling cheio de representação.
Por sua vez, isso gera um mercado auto sustentável que reforça a criação de novos títulos e o crescimento de estúdios para acompanhar a demanda.

Como os eventos de games ajudam na divulgação de jogos brasileiros?
Até agora pudemos ver que o sucesso dos jogos brasileiros no mercado é um reflexo de qualidade, apoio tecnológico e estratégico e uma comunidade local que aposta no potencial dos nossos criativos.
Sabe onde encontramos tudo isso e mais um pouco?
Em eventos gamers. Estes eventos não só unem jogadores que apreciam a criatividade dos jogos locais como atraem investidores e empresários interessados em fazer networking com estúdios e desenvolvedores.
Não à toa estes eventos têm separado espaços (e dias inteiros) voltados para fazer essa troca acontecer. Onde há consumidor, há potencial — e onde há potencial, há quem queira firmar um investimento.
Os dois principais eventos que ocorrem em solo brasileiro são:

BGS
A BGS (ou Brasil Game Show) é realizada anualmente em São Paulo, onde reúne milhares de apaixonados por videogames, incluindo desenvolvedores, empresas do setor e cosplayers.
A feira oferece uma experiência completa para os fãs, com lançamentos de jogos, competições, palestras, exposições e muito mais. Já para os estúdios, é um excelente espaço para expor seus trabalhos em demos e trocar cartões com investidores em espaços dedicados.

Gamescom Latam
A Gamescom é a maior feira de jogos eletrônicos do mundo, com sua sede na Alemanha. Realizada anualmente, ela chegou pela primeira vez em solos brasileiros ainda este ano (2024), e já se mostrou um evento imperdível para os apaixonados por games dentro e fora dos bastidores.
Ela também oferece uma experiência completa tal qual a mencionada na BGS, e seu espaço exclusivo para networking + corredores de jogos independentes fomentam a visibilidade dos produtores nacionais.
Estúdios brasileiros que se destacam no mercado de games
Ninguém faz como a gente faz. Pelo menos não nos mesmos moldes criativos, relatáveis e carismáticos, adjetivos que tornam o mercado brasileiro de jogos desejado até mesmo pelas grandes multinacionais.
Aquilo que faz do nosso país território fértil para investimentos globais também faz dele uma potência própria em expansão. Para confirmar essa afirmação, só conhecendo quem pode respaldá-la com qualidade comprovada:

Aquiris Game Studio
Fundada em 2007 com sede em Porto Alegre, a AQUIRIS (atual Epic Games Brasil) tem sido um dos principais destaques do mercado de jogos brasileiro. Para se ter noção, a empresa conquistou reconhecimento internacional com a franquia Horizon Chase, um tributo aos clássicos jogos de corrida dos anos 80 e 90.
Em sua evolução contínua, o estúdio ficou conhecido por desenvolver jogos para diversas plataformas, desde smartphones até consoles. O nome novo entre parênteses é mais recente, mas diz muito sobre esse desenvolvimento: Adquirida em 2022 pela Epic Games, é seguro dizer que ela tem sido pioneira em levar jogos brasileiros para o cenário global.
Behold Studios
Falou nostalgia, falou Behold Studios. Fundada em 2009 com sede em Brasília, a BS também tem se destacado na cena de jogos independentes, recebendo reconhecimento internacional com títulos como Chroma Squad, um RPG tático que homenageia as séries de televisão de super sentai, e Galaxy of Pen and Paper, uma paródia dos jogos de RPG de mesa.
Conhecida por sua criatividade e apelo nostálgico, seus jogos normalmente combinam elementos clássicos com mecânicas modernas. Sem falar que ela também leva a potência brasileira para o mundo através de seus mais de 70 prêmios conquistados.
Hoplon Infotainment
A Hoplon Infotainment nasceu em 2004 em Florianópolis, e desde então se tornou uma das principais desenvolvedoras e publicadoras de jogos no Brasil. Você já deve ter ouvido falar em títulos como Heavy Metal Machines, um jogo de combate que conquistou toda uma base global, ou no MMO Taikodom, maior projeto de jogo de computador desenvolvido aqui.
Por esses e outros milestones, podemos dizer que a Hoplon também é peça chave no crescimento da indústria de games brasileiros rumo à internacionalização.

Wildlife Studios
Por último mas não menos importante, a Wildlife Studios é uma das maiores desenvolvedoras de jogos para smartphones do mundo todo. Fundada em 2011, ela se tornou um verdadeiro gigante da indústria, com um catálogo de jogos de sucesso como Tennis Clash e Zooba.
A Wildlife também tem sido pioneira em levar jogos brasileiros para o resto do globo, chegando a expandir seus negócios para outros países e estabelecendo parcerias estratégicas com grandes empresas do setor.
Jogos brasileiros que fizeram sucesso
Sabe o que os títulos brasileiros escolhidos para esse artigo têm em comum? A avaliação acima de 90% por usuários do Google, e acima de 8 para usuários Steam.
Isso sem falar nos prêmios e indicações recebidos pela crítica internacional, comprovando a potência das criações locais e calando de uma vez por todas a ideia de que produções brasileiras deixam a desejar.
Você já conhece os principais estúdios e a resposta por trás de seu sucesso. Mas e os títulos que mais mexem com a cabeça do jogador global? Confira a lista abaixo:
Horizon Chase Turbo
Inspirado nos seus jogos favoritos de corrida do estilo arcade dos anos 80 e 90, Horizon Chase Turbo apresenta gameplay super rápido, cores vibrantes e um estilo de jogo dinâmico que te coloca no meio da ação.
Desenvolvido pela Aquiris Game Studio, o jogo conquistou o público (e a crítica especializada) por sua jogabilidade simples e viciante, incluindo também a experiência visual e sonora que transporta os jogadores para a época retrô dos videogames.
Chroma Squad
Chroma Squad é um RPG tático sobre cinco dublês que decidem se demitir e criar seu próprio estúdio de TV inspirado em Power Rangers! Contrate atores, compre equipamentos e melhorias para seu estúdio, crie armas e robôs gigantes feitos de papelão e fita adesiva.
Estética pixelada, elementos de RPG, gerenciamento de equipe e combate tático em turnos. A estratégia presente no jogo é tão nostálgica quanto inovadora. O humor, as referências à cultura pop e a mecânica de criação de um “seriado de super-heróis” conquistaram os jogadores, levando Chroma Squad ao topo entre os fãs de jogos independentes.
Celeste
Uma aventura para um jogador focada em narrativa, com gostinho de infância, um elenco encantador e uma história emocionante de autodescoberta.
Madeline precisa enfrentar seus demônios internos em sua jornada até o topo da Montanha Celeste. Uma história profunda e digna de indies de sucesso.
Embora não tenha sido desenvolvido por estúdios brasileiros, o jogo tem uma forte conexão com o Brasil: o trio de artistas que compõem o estúdio MiniBoss (atualmente localizado no Canadá, país de origem do jogo) foram responsáveis pela arte.
Dandara
O mundo de Sal está à beira do colapso. Os seus cidadãos, antes espíritos livres, estão agora oprimidos e isolados. Mas nem tudo está perdido, porque desta névoa de medo ergue-se uma heroína, um raio de esperança. O seu nome é Dandara.
Representatividade, brasilidade e uma estética familiar de tirar o fôlego. Esse é Dandara, jogo desenvolvido pela Long Hat House diretamente de Belo Horizonte. Características como a mecânica de plataforma, que permite ao jogador “grudar” em qualquer superfície e mudar a gravidade, a trilha sonora envolvente e a arte pixelada inspirada na cultura brasileira fizeram com que Dandara conquistasse a crítica e se tornasse referência na cena indie.
Fobia
A verdade depende da sua destreza investigativa. Não será fácil sobreviver a esta realidade virada do avesso: uma câmara que mostra diferentes linhas do tempo, um culto fanático, experiências humanas e criaturas macabras vagueam pelos corredores.
Fobia – St. Dinfna Hotel é um jogo de terror psicológico que rapidamente conquistou destaque na cena indie. Desenvolvido pela Pulsatrix Studios, o jogo já começa com uma atmosfera densa e gráficos realistas, garantindo aquela experiência de terror que te faz tremer no escuro.
Teleforum
Wálter Martins não está mais entre nós. O que aconteceu foi transmitido ao vivo… então por que ninguém tem a mesma versão da história? Investigue o último e misterioso programa de Walter. Entreviste sua esposa. Inspecione seu apartamento. Descubra a verdade.
Vai mais um terror psicológico pra conta? Desenvolvido pelo mesmo estúdio do título anterior, Teleforum conquistou a crítica e os fãs de jogos de terror por seu storytelling original e capacidade de criar uma vibe assustadora. Isso fez com que a Pulsatrix entrasse no radar como um dos estúdios mais promissores do cenário indie.

Como o mercado oferece desafios e oportunidades aos estúdios brasileiros de games?
Entre tanto reconhecimento, precisamos também falar sobre os desafios. No caso do desenvolvimento de jogos nacionais, estes desafios são semelhantes às próprias oportunidades, que ainda não são tão abundantes quanto o setor necessita para se manter competitivo mundialmente.
Alguns deles, além do marketing que é definitivamente mais parrudo para criações internacionais, por exemplo, é importante destacar fatores como:
Financiamento e investimento limitados
Falta de políticas públicas, dificuldade em atrair talentos e até mesmo maturidade de mercado são pontos que causam limitações financeiras. De quebra, a falta de recursos impede a criação de projetos mais ambiciosos, limita a contratação de profissionais qualificados e dificulta a produção de jogos com alta qualidade gráfica e sonora.
É justamente por isso que a existência de ONGs, eventos e incentivos governamentais é tão importante.

Competição com grandes estúdios internacionais
Quando falamos de mercado internacional, falamos sobre empresas que possuem orçamentos milionários, equipes experientes e acesso a tecnologias de ponta, coisas que não temos aqui com a mesma frequência.
Essa disparidade de recursos dificulta a visibilidade e a competitividade dos jogos brasileiros no mercado global, o que nos leva a reforçar a importância de investimentos (financeiros, educacionais e tecnológicos) e a saudar a resiliência de estúdios que se destacam apesar dos pesares.
Expansão para o mercado internacional
Apesar dos desafios, a crescente demanda global por jogos digitais, a diversidade cultural do Brasil (que pode gerar narrativas inovadoras) e a ascensão de plataformas digitais que facilitam a distribuição global são alguns dos fatores que impulsionam esse cenário.
Grandes eventos e incentivos governamentais inclusive ajudam a levar desenvolvedores pequenos para o exterior através de parcerias estratégicas, marketing especializado e investimentos coletivos.
Colaboração com outros estúdios globais
Não é só a Epic Games que vê valor nos jogos brasileiros e no mercado nacional. Se faz sucesso aqui e faz barulho lá fora, o interesse das gigantes também se posiciona. São justamente essas parcerias que permitem a criação de jogos mais ambiciosos, com maior qualidade visual e sonora, e com distribuição expansiva em diversas plataformas e regiões.

Como apoiar o crescimento da indústria de jogos nacionais
Apoiar o crescimento da indústria de jogos nacionais significa investir no potencial criativo e econômico do nosso país.
Primeiro porque a base desse suporte está no consumo: comprar, jogar e divulgar esses games ajuda os estúdios locais a ganharem visibilidade e recursos para continuarem produzindo.
Segundo porque o apoio à formação e ao desenvolvimento de talentos é o que move a roda do mercado de trabalho. Investir em cursos, oficinas e programas de mentoria fortalece a base de profissionais qualificados que vão criar jogos com a qualidade a qual nos referimos mais cedo.
Além disso, instituições de ensino também podem firmar parcerias com estúdios e criar uma ponte direta com o mercado de jogos. É um acordo e tanto para ambas as partes envolvidas.
Resumindo em tópicos, você apoia esse crescimento quando:
- Investe em ideias criativas;
- Consome produtos locais;
- Interage com as redes sociais destes produtos/estúdios;
- Joga, avalia e indica títulos criados localmente;
- Cobra apoio de instituições qualificadas.
E aí, já jogou um indie brasileiro hoje?
Nos vemos no próximo artigo 😉